13 agosto 2006

Heidegger e a questão da essência

Heidegger e a questão da essência – 23-05-06

Prof. Manuel Antônio de Castro

www.travessiapoetica.com

1º. Essência. É uma palavra complexa em sua origem. Ela está fundamentalmente ligada à primeira interpretação da “coisa”, “on” em grego. Cf. a apostila mimeografada distribuída em sala de aula a respeito de “real”. Emmanuel Carneiro Leão dá as seguintes explicações, a propósito do seu uso por Heidegger no início da “Carta sobre o humanismo”:

Diz Heidegger: “De há muito que ainda não se pensa, com bastante decisão, a Essência do agir”. Carta sobre o humanismo, p.23.

Nota de Emmanuel C. Leão: “A Essência = das Wesen: o substantivo alemão Wesen deriva-se do verbo wesen, hoje usado apenas em algumas formas, como gewesen (sido), abwesend (ausente), an-wesend (presente) e Wesen (essência, natureza, qüididade). Esse substantivo não designa, no texto, essência, natureza, qüididade, mas a estrutura em que vigora, i. é, desenvolve a força de seu vigor, o agir. Para exprimir esse sentido, escreve-se a palavra Essência sempre com maiúscula”. In: Carta sobre o humanismo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1967, p. 23.

A essência e o lugar originário da poiese.

A essência é uma questão no pensamento grego. Depois, ao longo do percurso filosófico tornou-se conceito. Ela está pensada na primeira interpretação do “on”, da “coisa” enunciada e comentada por Heidegger em O originário da obra de arte. Mas como muito bem diz Emmanuel C. Leão, essa palavra tem um uso tradicional que deu origem ao par opositivo metafísico: essência versus aparência e essência versus existência. A tradição sempre fez preceder a essência sobre a aparência. Depois Sartre fez uma inversão: disse que a existência precedia a essência, daí seu conceito de liberdade existencial, que deu origem ao existencialismo. Como se pode ver houve apenas uma nova inversão. Ultimamente tem-se denunciado largamente o Essencialismo ocidental, como se fosse uma grande novidade. Na realidade, essa desconstrução da metafísica é uma das diretrizes da obra de Heidegger. O desconstrucionismo posterior é uma simplificação e não-compreensão do que Heidegger propõe o tempo todo em sua obra, pois não pode ser reduzida a conceitos, ela é e permanecerá uma questão. Sem entender e refletir sobre a questão da essência fica superficial e até contraditória toda alusão a diferença e identidade no desconstrucionismo. A construção da identidade a partir da negação da essência ou essencialismo apenas reforça a posição sartriana, sem descer ao núcleo da questão. Mas essas posições têm uma grande atração, dado o seu viés político. Tais questões ficam reduzidas a conceitos e radicam todas elas no pensamento grego.

Heidegger as retoma como questões, daí uma aparente “volta cronológica” aos gregos. Não. Heidegger as apreende e as pensa como questões, pois elas como diz expressamente é que têm o ser-humano. Não é o ser-humano que tem as questões. Nós somos uma doação (poiese) das questões. Veja para isso o mito de Cura.

§96 - O que significa “de verdade”? Verdade é a essência do verdadeiro. Em que pensamos quando dizemos essência? Habitualmente como essência vale aquilo que há de comum e em que concorda todo verdadeiro. A essência se dá no conceito genérico e universal, que representa o uno que vale igualmente para muitos. Porém, esta essência sem diferenças (a essencialidade no sentido da essentia) é apenas a essência não essencial. Em que consiste a essência essencial de algo? Provavelmente baseia-se no que o ente é de verdade. A essência verdadeira de uma coisa se determina a partir do seu ser verdadeiro, a partir da verdade do respectivo ente. Contudo, nós procuramos agora não a verdade da essência, mas a essência da verdade. Mostra-se aqui um curioso entrelaçamento. É ele apenas uma curiosidade ou simplesmente uma sutileza vazia de um jogo conceitual ou – um abismo?

Outro aspecto a comentar diz respeito ao primeiro período do livro de Heidegger citado acima, de onde é retirado. Essência está ligada à essência do agir. O que é o agir? Ora, em grego esse agir é nomeado através de uma palavra que perpassa toda arte: poiesis, ou seja, a poiese, de onde se originaram as palavras: poesia, poeta, poema. Antes de ser uma pro-dução, a poiese diz muito mais o próprio agir em seu sentido. Agir com sentido é a essência. Poiesis, poiese é essência, é sentido, é o real como pro-dução e sentido, como linguagem e nomeação, como palavra e ética. Todo sentido se funda num ethos. O agir que funda um habitar, um morar, um de-morar é ethos, é mundo, é sentido do real e do real do ser-humano, é arte. Por isso disse Hölderlin: “Poeticamente habita o ser-humano”.

Uma das linhas fundamentais do ensaio de Heidegger O originário da obra de arte é uma reflexão profunda sobre o que é essência e sua relação com as obras de arte. Por isso é uma reflexão profunda sobre a essência do agir tanto do artista, do poeta como do leitor, mas muito mais, sobre o que é arte enquanto essência da obra de arte como essência da verdade. Então a essência do agir só pode ser acompanhada na leitura do ensaio se se prestar muita atenção ao desenvolvimento da essência do agir como essência da obra de arte e esta como a essência da verdade.

Este é o lugar de onde parte e onde se situa Heidegger, implícito ao longo de todas as suas reflexões sobre a arte. Esse lugar é o que já está enunciado no texto: Originário. Isto é muito simples. Ele parte das mesmas questões gregas. Isso não quer dizer que vá dizer as mesmas coisas nem que seja um mero comentário. Daí retomar inicialmente as três interpretações gregas do “on”. Toda reflexão grega de pensamento gira sempre em torno do “on’. É aí que de novo Heidegger se situa. Tentar entendê-lo é se abrir para esse “situs” ou lugar. Não é um lugar geográfico nem histórico: é poético-onto-fenomenológico. É o originário.

Por isso, tentar ler o ensaio dentro das perspectivas historiográficas e dos conceitos elaborados ao longo do percurso ocidental é não atentar para o que está sendo exposto e nem tomar uma atitude de escuta e abertura para as questões. A Heidegger não interessa discutir as diferentes teorias ou estéticas da arte, simplesmente porque são derivadas das posições gregas de Platão e Aristóteles, mal compreendidos e mal traduzidos nas traduções. Quando se lê e se diz que Heidegger cria uma estética como qualquer outro teórico, ainda não se notou que essa afirmação – e afirmar o contrário poderia dar a impressão de que Heidegger seria o único dono da verdade – parte do pressuposto de que Heidegger se situa já dentro da tradição ocidental ao lado de outros filósofos. Isto é um equívoco e grande. Sem o leitor se abrir para a questão do lugar é absolutamente impossível entender de que Heidegger trata e como ele se diferencia dos outros. Não é que outros pensadores (nem todos os filósofos, muitas vezes já dependentes de alguma teoria) também não tenham retomado esse lugar grego, mas não o fizeram com a amplitude, o conhecimento e a profundidade de Heidegger. Alguns pensadores, na maioria, procuram desdobrar o lugar grego dentro da tradição metafísica. Heidegger o questiona. E esta é a grande diferença. É o caso das três interpretações em que se move o pensamento grego e posteriormente todo o pensamento ocidental. Por isso Heidegger vai questionar essas três interpretações, melhor, esses três conceitos. Não se desfaz deles, mas, questionando-os, os aprofunda e procura pensar o que no “on” continua sendo digno de ser pensado. É nesse sentido que diz que nos três conceitos a “coisa” (o “on”) é agredido.

O mais importante de tudo isso é que esse lugar onde se situa recebe o impulso decisivo, como pensamento em exercício, da própria arte, da própria poiese. E este é outro aspecto que diferencia Heidegger radicalmente. Essa presença da arte em Heidegger começou com o estudo sistemático e profundo da obra de Hölderlin. Disso vai decorrer algo importantíssimo: em vez de as teorias estéticas ou literárias determinarem ou estabelecerem a essência da arte, da poiese, como é a tradição ocidental, são as próprias obras de arte, é a própria poiese que vai abrir e manifestar e apontar o lugar que originariamente lhe pertence. Mas não seria ainda isto um horizonte teórico dentro do qual a arte é determinada, ainda que aparentemente a partir dela mesma? De novo é preciso reiterar que o lugar, agora pensado, se abre como o lugar da questão e não da aplicação de uma teoria, de uma estética entre outras. Por isso não há princípio prévios, mas se parte do círculo hermenêutico e nele se move todo o ensaio. Isso já está implícito no primeiro parágrafo e logo a seguir é confirmado. De novo a questão do método diferencia Heidegger radicalmente. Na esteira dos grandes pensadores, ele faz da questão do método a linha mestra de questionamento do lugar e do seu percurso de pensamento neste lugar.

O pensar o lugar a partir da poiese e de suas obras é empreender um pensamento poiético na medida em que toda poiese é sempre uma poiese pensante. Esse “entre” de poiese e pensamento é o lugar em que Heidegger se situa e dele faz a questão digna de ser pensada. Esse é o lugar de onde parte e onde se situa Heidegger, implícito ao longo de todas as suas reflexões.

2 comentários:

LUCIA SANTIAGO disse...

Brilhante professor, tive o privilégio de participar de um curso ministrado pelo Senhor na faculdade de Letras, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

A cada encontro, no desenvolvimento de sua explanação docente, com a riqueza de seu conhecimento, tornava-me outra pessoa que as poucos ia morrendo e renascendo.

Obrigada por tamanha generosidade e doação aos seus alunos.

Ethel Araujo disse...

ESTUDEI FISOSOFIA E ME FORMEI COMO PROFESSORA, POREM NÃO ME APROFUNDEI,POIS ERA PROFESSORA DE CURSO MÉDIO NOS COLÉGIOS ,DO SEGUNDO GRAU,sempre li Heidegger, e o admiro muito,escrevi poemas sobre o filósofo porem nunca vi um estudo tão profundo quanto este que acabei de ler,neste estudO de grande capacidade.Gostaria de estudar com o professor Manuel, mas não sei onde poderia ser,agora já formada.OBRIGADA POR SUA SABEDORIA.
ethelaCARV@GMAIL.COM