o que já se se representa pro-posto e im-posto, sendo
o vigente, o inquestionado,o indubitável, o que, cada vez,
já está no saber, o certo e sabido em sentido próprio...
o que tudo põe em referencia a si e deste modo se
contra-põe a todo outro... Ego cogito é cogito: me
cogitare.
Toda a modernidade se inaugura desde o momento em que o homem com a razão se torna o sujeito, o centro de toda e qualquer representação da realidade. Esta só passa a ser realidade no especular. Estabelecer e determinar isto será a verdade da modernidade. Ter certeza desta verdade será simplesmente fazer da razão a medida da realidade, da representação da realidade. A representação enquanto verdade será o pensar que se pensa enquanto medida da certeza. Por isso, a questão do especular na imagem-questão o espelho tem sido recorrente na Poética da modernidade. Poética diz aí não um novo conjunto de regras, mas um novo caminho em que o ser se destina enquanto verdade. A modernidade será a verdade do especular, a verdade da realidade enquanto representação. Estas representações, enquanto especular, assumem as mais diversas formas, do literário-retórico ao político, do psíquico ao social, do científico ao estético. Na modernidade tudo é representação, tudo é especulação. E é enquanto especulação que a realidade se torna a objetividade da subjetividade, da especulação. Esse é um largo passo na caminhada do Ocidente. Porém, o Ocidente é uma dobra, pois há um outro Ocidente na modernidade. A outra modernidade é a poética. Nela também acontece o especular, mas em lugar de ser a verdade da representação, o espelho será o ambíguo caminho do próprio.
Uma vez que o especular é, no fundo, o especular-me, este se torna um caminho para fora que tanto mais avança quanto mais se adentra. E aí podemos apreender o que em essência é propriamente a forma não retórica e meramente formal. Tomamos como referência o conto de Guimarães Rosa O espelho (Rosa, 1967: 71-78). Mas não nos detemos especificamente num diálogo de escuta denso e cerrado com o que aí é especulado. Estas reflexões são como que a propedêutica para toda especulação poética e ao mesmo tempo uma tematização da infertilidade e inutilidade da mais usada categoria para determinar o poético: a forma.
A cerrada e densa narração que o narrador faz em O espelho, na realidade não é senão uma viagem invertida: não da superfície para o centro, mas do centro para a superfície, que não é, então superficial, mas a plenitude de realização em sua essência inaugural e originária.
Rosa diz respondendo à pergunta do crítico alemão Günter Lorenz: “Você é um pensador, um místico?”
Somos tipos especulativos, a quem o simples fato de meditar causa prazer...Chocamos tudo o que falamos ou fazemos antes de falar ou fazer...E também choco meus livros. Uma palavra, uma única palavra ou frase podem me manter ocupado durante horas ou dias...Temos de aprender outra vez a dedicar muito tempo a um pensamento...Os livros nascem quando a pessoa pensa; o ato de escrever já é a técnica e a alegria do jogo com as palavras (Lorenz, 1991: 79).
Se agora pensarmos que o próprio nos advém sempre enquanto linguagem – a quarta dimensão do tempo – ele choca as palavras que cada próprio é. E o vigorar do próprio é a linguagem. E, evidente, a choca no conto O espelho, poderíamos até dizer, especialmente neste conto, pois este trata da questão originária do especular. Todos os contos de Primeiras estórias são primeiras porque são questões originárias. Esse chocar é uma viagem invertida, porque ao chocar, na verdade, ele quer que a forma externa do próprio (o “eu” que se olha e pro-cura no espelho), aquilo que recebeu forma vá sendo adentrado num chocar, mas não para desmontar e analisar, camada por camada até achar a causa, a forma, mas para no especular que é o chocar, a partir da essência do próprio, ele se vá manifestando no que é, no próprio. Presencialize-se de dentro para fora. Toda presencialização é um advir do nada para o ser, sendo o nada, do silêncio para a fala, sendo o silêncio, do ser para o sendo, sendo o ser. Toda presencialização é a verdade da não-verdade. Retira camada por camada para que assim a essência apareça como o eclodir do que no chocar deve aparecer, a linguagem agindo e vigorando. Ele só retira para deixar eclodir o próprio no seu desvelamento, na sua verdade (e não apenas deixar aparecer a aparência, como fica bem claro no conto de Machado O espelho, onde a identidade da representação social acabou por encobrir o próprio (Machado, 1962: 345-352). E assim a viagem dolorosa e demorada do retirar, a viagem do narrar quer narrar para deixar o narrar narrar o inaugural, o que se choca no narrar: deixar eclodir o que o narrar enquanto especular não cria nem dá forma, mas manifesta o que o vigorar do próprio por si e em si faz aparecer, desvela. Nesse sentido, narrar é sempre o especular que faz eclodir o próprio em ex-perienciações.
A palavra ex-perienciação forma-se do grego eks-peras. Peras diz em si o que no eclodir chega ao limite. Já o eks- indicia o que já desde sempre dá o impulso para fora, para além, isto é, o não-limite. Porém, o narrar traz em si o saber do que é. Narrar expererienciando-se é saber-se no eclodir enquanto acontecer poético. É chegar a ser o que é. A isto o que cada próprio é é que os gregos denominaram morphé. Esta indica, portanto, um vir de dentro para fora e nunca um impor limites a partir de algo externo e fixo. Morphé diz eclosão do que é, desvelamento enquanto verdade de realização. Para o grego e para cada sendo nunca pode haver morphé sem télos, isto é, sem eclosão ou desvelamento em sua plenitude de realização. Jamais morphé é forma funcional e causal, isto é, o que cumpre uma finalidade, forma de ser do utensílio. A forma imposta de fora e para algo de fora. No utensílio a forma é a sua finalidade. Como a obra de arte não tem finalidade nem funcionalidade ela não tem forma. Presencia a realidade. À presencialização da realidade no que ela é sendo, é o que se chama télos, a realidade se dando em sentido enquanto realização. Se não há forma muito menos há matéria. Só há matéria no utensílio, na medida em que esta deixa de ser a realidade se manifestando e sendo para tornar-se função da finalidade causal. Matéria passa a ser o que tem serventia, o servir a uma causa. Esta é a essência da causalidade instrumental. Porém, a própria matéria é escolhida de acordo com a finalidade e a forma a ser formada. A forma formante é sempre a forma em função do causal e do funcional. O formante diz do atuar e agir tendo em vista a finalidade e serventia ou utilidade funcionando, servindo perfeita e continuamente à causalidade, determinada por uma sistema enquanto representação da realidade.
Então retirar pelo narrar é pro-curar pelo narrar o que subjaz na aparência para deixar aparecer o que o próprio é em sua essência originária, o “isto” que ele é e tanto mais é quanto mais é sendo, acontecendo, não o sendo da forma do narrar, mas o sendo do que narrar não é e só parece que é. Quando o narrar retira o que parece que é no sendo, tanto mais o que é o sendo em seu vigorar vai-se dando os limites sem forma, o sem forma da presença, a própria expressão corporal, pois vai aparecendo não mais o que parece nas máscaras, mas o que aparece e é em sua verdade, não sendo a verdade algo de fora, mas o contínuo vigorar no desvelar-se, no presentificar-se do presencializar-se. “E as máscaras, moldadas nos rostos? Valem, grosso modo, para o falquejo [desbaste] das formas, não para o explodir da expressão, o dinamismo fisionômico” (Rosa, 1967: 71).
E o narrar enquanto palavra se torna um narrar inaugural da linguagem, não sendo esta nada mais do que o sendo sendo o que é em sua essência originária, no isto que cada sendo é, isto é, acontecendo poeticamente. Narrar especulando é o ambíguo jogo do retirar para deixar aparecer o que o narrar enquanto especular não pode dar, o que a forma do narrar enquanto representação não pode dar, nem o sujeito pode dar. Dar forma à narrativa é um negar a própria forma para que apareça a figura a partir do vigorar do próprio e este vigorar do próprio se torna o outro narrar, aquele que surge pelo contínuo estar além das formas, enquanto ex-perienciações, pois sendo um narrar inaugural que consiste no eclodir do vigorar nos limites do manifestar-se. Estes limites não limitam, pois eles são postos não de fora, mas im-postos pelo eclodir, pelo tender ininterrupto à realização, à plenitude, do ser sendo e tornando-se realidade. É o isto de cada sendo experienciando-se no seu tender a partir do próprio, de sua essência originária na plenitude de realização, sendo o que é no e pelo acontecer.
E assim o especular que retira os limites externos se transfigura e se torna o próprio especular que deixa o narrar inaugural inaugurar o isto de cada próprio num acontecer poético.
O que aqui parece muito abstrato, embora, enquanto acontecer poético, seja o con-creto, pode-se tornar mais experienciável enquanto ensaio de dizer o que só cada sendo pode experienciar se lançarmos o leitor e seu sendo numa imagem-questão: uma galinha chocando os ovos. A presença da galinha com seu calor acaba por destruir, desfazer a forma do ovo. Mas não é a galinha com seu trabalho que cria o ovo nem as novas formas do ovo eclodindo no que ele é.
E aqui se acaba a pretensão da modernidade em determinar a realidade por seu poder de representação e dar formas à representação. Como eu posso representar algo se antes este algo não se deu a ver? Dar-se a ver, pôr-se, ocupar uma posição, diz-se em grego: thesis, do verbo títemi. De thesis veio tema. Tema é, em verdade, o que já se deu como questão para ser tematizada. Aí acaba o poder da retórica e da sofística em querer moldar de fora o que só se pode realizar a partir do que é próprio.
O universo não é uma ideia minha.
A minha ideia de universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos.
A minha ideia de noite é que anoitece pelos meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
(Caeiro, 2004: 129)
Independentemente do meu pensar, do meu representar, a noite anoitece con-cretamente. Assim como o ovo da galinha eclode con-cretamente, sendo e acontecendo no vigorar de sua essência originária. A minha representação do ovo da galinha nascendo não passa de um representar externo, de um saber sobre. Toda forma é uma representação de quem vê de fora. O ovo em si-mesmo não cessa de acontecer, representando-o ou não o representando. O universo acontece independentemente de eu dar uma forma ao universo, isto é, uma representação. Mas as formas de representação são múltiplas, por isso, tende-se a confundir a criação com uma forma de representação. Diz o Nobel de Química, Roald Hoffmann: “Mesmo que exista uma estrutura que permeie a realidade, existem 36 meios de representá-la”. E comentando a citação, diz Marcelo Gleiser: “Aqui já vemos uma noção de pluralidade do conhecimento: existem muitos meios de construir conhecimento sobre o mundo – e a ciência não é o único” (Gleiser, 2009: 3). Confunde-se o criar com a possibilidade de construir conhecimento sobre o mundo. Construir conhecimento sobre é dar forma à realidade. Quando a realidade se manifesta a partir dela mesma, não há representação, não há forma. Há, de fato, criação enquanto o vigorar do originário. Como este vigorar não é um vazio vazio e niilista, à eclosão não denominamos forma como se fosse representação, mas presencialização. E então não há diferença entre matéria e forma. Há a própria realidade realizando-se, tornando e dando enquanto presença, verdade, desvelamento. (Um vazio vazio e niilista é o falatório sem o vigorar do silêncio, sem o vigorar do originário).
Se agora voltamos ao ovo, constatamos que as novas formas do ovo se dão a partir do vigorar do que no ovo já é, já vigora. Ser é vigorar. Vigorar é sendo e jamais representar. É da essência originária do ovo que está operando em verdade a sua verdade e no operar eclode no que é, desvelando-se em seu próprio, sendo o que é, é que surgem os limites. São os limites da medida. Mas são limites que não impõem uma forma, são limites de experienciação de vida, pela qual, muito ao contrário, de se impor limites formais vai se manifestando no isto que o ovo é, vai tendendo à plenitude de realização, até o ovo se tornar galinha. E esta encontra a sua plenitude quando totalmente autônoma em relação à galinha-mãe se torna por sua vez mãe e põe ovos. Mas estes também se libertam dela, pois já trazem dentro de si o que futuramente serão. Se considerarmos que cada galinha é um sendo, aquilo que constitui sua essência originária não se esgota em vigorar nele e levá-lo à eclosão de seus limites e medidas. Isso é a verdade do sendo, de cada sendo-ovo-galinha. Por isso, os deuses sempre alertaram o humano para a hýbris, a desmedida. É que o sagrado, não o sujeito, é a medida.
Porém, há uma outra realidade que nunca aparece, mas sem a qual não há sendo-ovo-galinha. Ele também não está fora em algum lugar privilegiado para não se sabe nem quando nem porque nem como descer no sendo-ovo-galinha. Ele só vigora em cada sendo-ovo-galinha, sem o qual nenhum sendo-ovo-galinha é, enquanto presença-ausência, mas con-creta. Ele é sempre o velado de todo desvelado. Ele é o limite do não-limite. Ele tanto mais se dá quanto mais se retrai. Retrair não diz aí não ser realidade, mas ser simplesmente a realidade que se deixa realizar em cada sendo-ovo-galinha e que cada sendo não esgota, mas já traz dentro de si não como mera possibilidade, porém enquanto o poder ser em cada sendo, a realidade se realizando na realização de cada sendo-ovo-galinha. Não é possibilidade mera, é um vigorar. Este vigorar que não deixa de ser realidade é o ser do sendo-ovo-galinha. Cada ovo-galinha-sendo é um narrar – e não um mero representar do especular que se especula – e o ser de cada e de todos os ovos-galinhas-sendo é o narrar inaugural que não cessa de acontecer e se inaugurar. É a realidade poética. A realidade enquanto acontecer poético é o narrar inaugural, é o Ser. É a Vida (zoé, para o grego). E o especular é o narrar que deixa o narrar inaugural se especular. Especular é especular-se enquanto realizar-se, jamais enquanto representar-se. Especular é espelhar-se, onde esse se não é um pronome apassivador, mas o núcleo do acontecer que alimenta o agir do próprio verbo. É a essência originária do agir que possibilita a cada verbo se tornar verbo.
Isso precisa ser bem compreendido. A essência originária do acontecer poético de todos e de cada verbo nunca é um verbo, uma palavra. É o Ser, porque o Ser é o verbo de todos os verbos e que qualquer verbo em seu acontecer poético jamais esgota ou nomeia completamente. A essência originária é o próprio Ser se dando enquanto linguagem. Dessa maneira nunca podemos reduzir o narrar à ordenação e à sintaxe das orações num discurso (estudadas gramaticalmente ou como o estruturalismo pretendeu um dia: a gramática da narrativa, que seria a narratividade, isto é, uma essência conceitual, representacional e funcional). Isso ainda seria reduzir o acontecer da realidade a formas sintáticas externas, aquelas tomadas pelo discurso. Muito pelo contrário, seria até impossível apreender a sintaxe do discurso se este de antemão e para além da sua forma externa não estivesse vigorando no narrar inaugural da linguagem do discurso. Por isso, a linguagem é o sentido de unidade que a sintaxe enquanto ordem pode apontar, indicar e até analisar. O sentido vem da linguagem, da essência originária do narrar inaugurável. Querer determinar o sentido do discurso por uma sintaxe formal, social, histórica ou psíquica, seria o mesmo que querer determinar a forma do sendo-ovo-galinha pelo conjunto das circunstâncias externas, sejam naturais, sejam culturais.
Claro que estas são importantes, como o calor e desvelo da galinha são importantes para o operar do ovo em seu eclodir, mas não são as determinantes do que no ovo acontece. Pelo contrário, elas somente surgem já do vigorar do narrar inaugural, pois este não apenas põe e ex-põe o sendo-ovo-galinha, também reúne no vigorar da linguagem em palavras e proposições e assim uma tal reunião e unidade constitui o que apropriadamente chamamos mundo. Diz Rosa: “Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar...” (Rosa, 1968: 353). Mundo é todo esse acontecer poético da linguagem, na qual o homem ao nascer já está jogado.É o que Heráclito denominou como o operar do lógos: tudo é um (Heráclito, 1991: 71, frg. 50). À unidade de tudo/nada podemos denominar: tempo, linguagem, memória. Mundo. Ao pensarmos a sintaxe poética do narrar inaugural, podemos pensar, no lugar do sendo-ovo-galinha-sendo, a obra-de-arte-sendo-em-seu-ser. Toda obra de arte em seu ser é o sendo da disputa de Terra e Mundo. Aqui não há forma nem matéria.
Formatados por uma educação formal, retórica, e não poética, somos conduzidos pelas formas aos conteúdos, ao que tradicionalmente se chama, também inadequadamente, matéria. Já se pensou o que seria linguagem enquanto matéria? Linguagem só é matéria se a reduzirmos a uma matéria instrumental, ou seja, a linguagem estudada e ensinada pela gramática das formas discursivas. É a linguagem causal. É a linguagem, melhor, discurso retórico. A linguagem só pode ser instrumental quando reduzida ao discurso retórico. Este é utensílio, presta serventias, pois visa a produzir mensagens e a convencer. Por isso, tais produções têm forma e podem ser divididas em gêneros. A obra poética não pertence a nenhuma forma nem a nenhum gênero. A linguagem da arte, do ser da arte, é manifestativa da realidade, é a própria realidade acontecendo enquanto linguagem, sentido e verdade. Porém, desformar, tentando anular a função de um utensílio para declará-lo obra de arte, ainda não é presencializar, como gostam de proclamar as vanguardas e os novos gêneros e formas.
Se não há forma, como acabamos de ver, mas limite de plenitude de realização, num acontecer in-cessante da própria realidade se realizando, dando-se em presença, por isso, como somos distraídos e formatados, para nos acordar, logo no início do conto O espelho, o narrador nos diz: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo” (Rosa, 1968: 71). Arte é Nada, por isso, a obra de arte sendo, operando, acontecendo, não tem forma nem matéria. Não tem causas final nem eficiente. Há poiesis, que é o vigorar da essência originária. O não-cessar do limite sendo é o acontecer do Ser, da Arte, do Nada. Há sempre no acontecer da realidade, enquanto o próprio operar da obra de arte, um milagre... “que não estamos vendo”, graças às formas que vemos. Diante do destino que é a realidade sendo e acontecendo enquanto milagre e não vemos, não será que temos que nos tornar Édipo? Vendo a cidade e vendo-se só lhe restou uma saída: cegar-se. Aí afirmou o milagre do Nada. Antes que a realidade fique empestada, não é melhor deixar a Terra ser Terra sendo Mundo, sendo obra de arte acontecendo? O que hoje é a peste da Terra e do Mundo não é causalidade desenfreada e dominante? Não é a sociedade de consumo de bens, de discursos, de imagens, só possível pelas formas retóricas? Não é a ficção dominante representação retórica e formal? Não é esta a questão da contemporaneidade? Diante da peste, não é que as pessoas não possam casar e ter filhos. O incesto está na exclusividade e exclusão que ela impõe: a representação causal e formal. Por isso, onde mora a causalidade exclusiva, aí mora o perigo:
Ora, onde mora o perigo
é lá que também cresce
o que salva.
(Hölderlin, in: Heidegger, 2002: 31).
A salvação, todos sabem, é a vigência da realidade poética em sua plena presença, sem formas nem causalidade.
GLEISER, Marcelo. “Tensão criadora”. In: A folha de São Paulo. Caderno Mais, 18-10-2009.
CAEIRO, Alberto. Poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
HÖLDERLIN, Friedrich. In: HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. In: Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2002.
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. 3.e. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.
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OS PENSADORES ORIGINÁRIOS – Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Trad. Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis: Vozes, 1991)
