Entrevista sobre o livro: Arte: corpo, mundo e terra.
Eis as minhas respostas à entrevista feita pelo jornalista Bruno Franco, do Jornal da UFRJ / Coordcom, a propósito do livro que organizei e foi publicado pela Editora 7letras: Arte: corpo, mundo e terra.
Olá professor Manuel.
A Coordenadoria de Comunicação da UFRJ gostaria de divulgar o livro Arte: Corpo, Mundo e Terra, editado pelo senhor, no seu boletim eletrônico Olhar Virtual, na seção Entrelinhas. Para tal, o senhor poderia nos responder a algumas perguntas?
Qual a proposta do livro Arte: Corpo, Mundo e Terra?
Fundamentalmente são duas. Primeira, fazer um exercício concreto de interdisciplinaridade. Para isso foram convidados diferentes professores de diferentes disciplinas. Isso poderá ser visto facilmente pelo índice temático. Essa é a proposta central da POÉTICA: ela congrega todas as manifestações artísticas, sendo, portanto, uma POÉTICA ORIGINÁRIA, onde se reúne e une poesia e pensamento. A POÉTICA nada tem a ver com normas e gêneros como modelos a priori. A segunda diz respeito a algo mais profundo ainda: mostrar que a arte está muito além do modo sofístico, retórico e metafísico de a entender e de classificar as obras de arte. Obra de arte não é organismo formal ou ideológico. Obra de arte é um corpo vivo. E como corpo vivo manifesta a vida enquanto terra e mundo. É o modo diferente e originário de compreender a arte. Esse é o grande desafio da POÉTICA.
O que motivou a escolha de corpo, mundo e terra como focos temáticos para os ensaios?
Esta pergunta já foi um pouco tematizada na resposta anterior. Acrescentaria que o emprego aí de terra nada tem a ver com o conceito de planeta. Isso pode ser visto bem quando é tratada a ecologia, melhor, a poético-ecologia. A ecologia não diz respeito como é normalmente divulgado à natureza. A oposição de natureza e pólis tem origem na paideia sofista e foi continuada pelo movimento da modernidade como a oposição de natureza e cultura. Isso gerou uma compreensão da natureza muito superficial. Quando, por exemplo, se fala da natureza do processo político, da natureza humana, nota-se facilmente como o sentido banal de natureza não dá conta desses sentidos. É que natureza é algo diretamente ligado à essência do ser homem. Daí ser impossível pensar a ecologia sem pensar a essência do homem. E a essência do homem é a linguagem. E a linguagem é mundo. Ora, as obras de arte é que manifestam o próprio do homem: a linguagem, isto é, mundo. Nesse sentido, a essência da pólis é a promoção e realização do próprio dos cidadãos, isto é, é a tarefa essencial da pólis. A essência da polis é a essência do diálogo, porque todos somos reunidos pelo lógos. Daí a essência da polis e sua tarefa primordial ser: a de educar o ser humano, todo ser humano. Educar diz aí o que a palavra desde a sua origem latina diz: conduzir para fora, para a manifestação o que cada um já traz dentro de si como próprio. Portanto, a arte é essencialmente essa promoção. Logo, ela é essencialmente uma tarefa política, ecológica, ética e poética. Mas infelizmente o político ficou muito limitado ao jogo do poder como ideologia. Originariamente, o político é mais radical, é mais complexo. Por isso, nenhum sistema dá conta das tarefas essenciais do que é o político como educação do ser humano para o que lhe é próprio.
Há um viés heideggeriano na obra?
A pergunta é oportuna. Uma das tarefas inovadoras da POÉTICA é também proclamar que não há autor sem obras. E, portanto, o que interessa são as obras. Agora imagine que as obras são alimentos. Cada um que as lê se nutre das reflexões que desenvolvem e contêm. Esse é o alimento que nutre o ser humano enquanto linguagem, pois somos essencialmente diálogo. Quando nos alimentamos não nos alimentamos de adjetivos: heideggeriano, junguiano, marxista, hegeliano, cartesiano, kantiano etc. etc. Alimentamo-nos das questões cultivadas, chocadas nas obras. Essa alimentação faz eclodir, aparecer, o corpo no que ele tem de PRÓPRIO. Seu corpo metaboliza o que come para manifestar o que é próprio de cada corpo. O mesmo acontece com a leitura das questões das obras. Cada leitor deve fazer uma metabolização, senão será algo que ele não é. E a alimentação tem que ser boa, que alimente mesmo. O ser humano para ser o que lhe é próprio tem que se mover e alimentar de QUESTÕES. Só com as questões é que crescemos e acabamos por nos apropriar do que nos é próprio. Quem mais, e todo mundo reconhece isso, pôs em questão as questões essenciais do ser humano em todos as suas dimensões no século vinte, foi Heidegger. A título de exemplo, veja a questão da técnica. E os jovens são naturalmente questionadores. E só o questionamento renova os lugares-comuns e os "ismos". Qualquer "ismo" ou adjetivo é a negação do questionamento. Mas não se pode questionar com as palavras dos outros. É necessário apropriar-se como se fosse um alimento desses pensamentos e metabolizá-los, para que cada um manifeste o que lhe é próprio. Para isso é necessário questionar e dialogar. Todo grande autor e criador é um questionador. E é das obras deles que gosto de me alimentar. Além de Heidegger, citaria Platão e, no Brasil, o grande pensador-poeta: JOÃO GUIMARÃES ROSA. Este frequenta muito mais meus ensaios do que o próprio Heidegger, isto é, suas obras me provocam tanto ou mais do que o próprio Heidegger. Mas o uso de qualquer adjetivo para classificar alguém é sempre IMPRÓPRIO (só se a pessoa for alienada e pseudo-cópia de alguém). Todo grande autor quer fazer de seus leitores pessoas que pensem e jamais sejam cópia do que eles dizem. Eis o que diz Rosa em Grande sertão: veredas:
“Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém...”
(Rosa, 1968: 347)
Como vê o próprio Rosa aconselha que jamais sejamos: heideggerianos, marxistas, kantianos, platônicos etc. não pode nem convém. Seria a mais radical e mortal alienação.
A arte seria capaz de trazer a alétheia, a revelação do Ser, enquanto manifestação das múltiplas presenças do Divino?
Os gregos tinham duas palavras fundamentais para VIDA: ZOÉ E BÍOS. Bíos é cada ser vivo. E zoé é o vigor vital que possibilita cada ser vivo. Não vivemos sem a zoé, mas esta não se extingue quando um ser vivo deixa de viver, ou como belamente disse Rosa, desvive. Porém, a zoé não está nunca separada de cada ser vivo, de todos os seres vivos. Cada bíos, cada ser vivo, vive no e a partir da zoé. Zoé é o Ser e cada ser vivo é um sendo. Porém, nem todo ser vivo fala da zoé, do próprio ser vivo. Falar de é já se mover na linguagem. E mover-se na linguagem é todo aparecer como mundo e sentido. Mundo é a vida enquanto sentido. E isto é o Ser. A manifestação da zoé em cada ser vivo, ou seja, do seu sentido, é que constitui o que chamamos de artístico (corpo, terra e mundo). A manifestação da zoé em cada ser vivo é o que os gregos chamaram de alétheia. Ela é a verdade porque essa manifestação se torna linguagem e sentido, ou seja, terra e mundo, realidade. E isso é que é arte. Arte nada tem a ver com forma estética ou ideológica. Isso é formalismo sofístico e retórico que diz respeito aos utensílios. Os gregos chamavam ao vigor de manifestação, em diferentes e múltiplos e riquíssimos seres vivos, de presença e manifestação do divino, ou seja, de theoi. As manifestações do sagrado, isto é, da zoé, se dão de muitas maneiras: são "theoi", isto é, deuses. Não é que haja muitos deuses, mas que há muitos modos e maneiras de o sagrado se manifestar. Não é sagrada e divina a riqueza das vidas e da vida? O sentido do sagrado é manifestado nas obras de arte. Isso é que os gregos chamavam de alétheia. Mas ele também se pode manifestar nos mitos, nas obra de pensamento, nas diversas religiões. A vida em toda a sua riqueza não é um mistério? Quem o nega? Não o simples e complexo ato de viver, mas o seu sentido. Isso é o sagrado, o divino. Isso é o Ser se manifestando. Algum bíos esgota a vida? Algum sendo esgota o Ser? Então o grande mistério consiste num fato muito simples: tanto mais a vida se manifesta em múltiplos e incontáveis "bioi", tanto mais a vida se retrai e vela em seu poder de sempre vigorar em novas vidas. A a-létheia diz, portanto, a manifestação que tanto mais se manifesta quanto mais se vela. E isso é que permite que a vida/zoé seja inesgotável e indecifrável, numa palavra, algo divino. Por isso, toda obra de arte resiste a todas as interpretações e ao tempo cronológico. Ela é memória do tempo, da vida, do ser, de zoé. É que nela vigora a zoé, o divino, o sagrado. Mas é pela zoé que continuamos vivos. Arte é vida, é zoé, um vigor que não cessa nunca de vigorar e fazer acontecer a história e a vida.
Como a poesia pode retomar o seu papel no desafio de decifrar os mistérios do mundo?
Só a razão e os conceitos querem decifrar algo. Decifrar é achar uma regra, uma lei em que tudo fique previsto como causalidade e função. Achar as leis da natureza e da vida, eis a pretensão da razão. É util esse esforço, mas não é tudo, porque a vida e a natureza não se reduzem a causalidade e funções. Já pensou se todos nós fôssemos reduzidos a funções. Estas são necessárias e importantes, mas não são tudo. Vivam as diferenças!!! Viva o insólito, a beleza, o impossível, o inesperado, a pura amizade, a doação sem porquê do amor. Por isso mesmo o saber causal e funcional é um deciframento muito volátil e passageiro. Qual o conceito que decifra o que é a vida/zoé? A poesia não quer, nunca quis decifrar nada. Pelo contrário, quer deixar o nada vigorar. Guimarães Rosa no conto "O espelho" diz: "Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo". Aí o sujeito (se de sujeito se pudesse falar) do verbo acontecer é o NADA. A arte nos joga no NADA ACONTECENDO, isto é, a zoé sendo em cada ser vivente, em cada bíos. O perigo está em vivermos a vida apenas no nível do bíos como função, esquecendo o que é essencial e é a fonte de toda a vida: zoé, o ser, o sagrado, o milagre, no dizer do pensador-poeta: Rosa. Eis aí o mistério e os mistérios do mundo. É algo de onde não pára de nascer o novo e o diferente e o que está para além de qualquer função e causalidade. O mistério é por isso mesmo a essência da felicidade, porque só a zoé pode dar a plenitude da vida.
Em que medida realizar o corpo seria realizar o ser humano?
Corpo não é organismo. Corpo não é matéria oposta a alma e a espírito (razão). Corpo é o humano se realizando. O que é então o humano? O humano é a vida (bíos)/sendo se dimensionando pela zoé/ser.O humano é a essência do que é próprio a todo ser humano. E o que lhe é próprio é a zoé/ser. Por isso, cada obra de arte verdadeira é um corpo-vivo. Quem insiste nesta questão da arte como corpo vivo é Platão no diálogo FEDRO, que trata da essência do humano ligado ao amor e ao sagrado. Mas a grande questão de Rosa também é o humano do homem. Realizar esse humano é fazer a travessia.
A Terra tem menos a ver com os seus recursos materiais e tangíveis do que com o lirismo transporto em uma obra de arte?
A leitura da terra como dispositivo de recursos naturais é uma leitura da sofística retórica e metafísica, encarnada na ciência moderna como império da técnica e da causalidade. Por isso, esta não fala apenas da terra como recursos naturais, também reduz o humano, no que lhe é próprio, a meros recursos humanos. Veja, tudo se torna recurso. Recurso é algo que pode exercer alguma função dentro de um sistema causal. E todo sistema é causal. O humano poder ter diferentes funções. É importante e faz parte de sua essência esse poder ser, mas reduzi-lo a FUNÇÕES é negar o que há de mais próprio no ser humano: sua liberdade não-funcional nem causal. Por isso, o humano só é essencialmente político quando se realiza em todas as suas potencialidades e não fica reduzido a funções técnicas e ideológicas. Nisso a educação, e mais ainda a universidade, está falhando. Lirismo é uma classificação das obras de arte a partir de gêneros. Classificar é uma tarefa sofística e retórica, baseada na causalidade de algum sistema e fundamentado na técnica enquanto medida causal. Toda técnica é usada para causar algo, daí a necessidade de classificar. Mas isso não diz respeito à POÉTICA, SÓ À TÉCNICA DE FAZER OBRAS. Terra, essencialmente, é zoé/ser, é um criar contínuo, isto é, gerar vidas novas e conduzi-las à plenitude de realização. Essa é a tarefa poética. Por isso, o ser humano quando tem uma determinada vivência diz a todo momento: sou isto, sou aquilo, isto é, vivo isto, vivo aquilo, mas onde o viver se dá como linguagem e sentido, isto é, corpo, obra de arte.
Como fazer para distinguir o mundo como questão e o mundo como conceito?
Muito simples: quando se adjetiva o mundo temos os conceitos. Por exemplo: mundo antigo, moderno, medieval, religioso, pagão, católico, cristão, oriental, ocidental, político etc. etc. Quando o ser humano se experiencia como linguagem e sentido, então temos mundo enquanto questão. Por isso a linguagem é a quarta dimensão do tempo. E se tempo é linguagem, e é, é mundo. Eis porque mundo jamais pode ser reduzido a conceitos. Questão não é algo que alguém pode ter ou não. Todo ser humano quando nasce já nasce dentro e a partir das questões. Já nasce na vida, que é questão, no tempo, que é questão, no mundo que é questão etc. etc.
O livro conta com artigos seus e também de outros docentes da UFRJ?
Sim. Foi uma escolha proposital para acentuar a interdisciplinaridade e, assim, apontar para uma universidade que está ainda por vir. Uma universidade nova, realmente nova, que não apenas faça do ser humano um recurso humano, mas seja o lugar de uma nova paideia, uma peideia poética, uma peideia que leve ao cultivo e ao apropriar-se do que é próprio a cada ser humano e que, portanto, seja essencialmente política. O próprio é a vida que cada um recebe para ser vivido e que em todos os seres vivos é diferente. O próprio é a afirmação mais radical das diferenças a partir e dentro do mistério da zoé, da vida, do ser. Uma universidade que oriente para a diversidade é a sua missão essencial. Claro que deve também desenvolver em cada ser humano suas potencialidades funcionais, mas não pode parar aí, como acima já explicamos. Daí a necessidade da interdisciplinaridade.
Um grande abraço, aguardarei retorno. Bruno
Eu é que agradeço pela oportunidade.Um grande abraço.Prof. Manuel
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1 comentários:
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